Preço x Valor – O desafio de avaliar empresas nascentes

Preço x Valor – O desafio de avaliar empresas nascentes

11/06/2014

A avaliação de ativos é um tema complexo e quanto menos líquido é o ativo sob análise, maior a dificuldade em se arbitrar o preço justo. Digo, o valor justo. Sim, existe uma diferença que merece atenção: embora parecidos, os conceitos estão sujeitos à influência de variáveis diferentes.

A essência do trabalho do capitalista de risco consiste em investir em ativos que ele julga possuírem uma diferença relevante entre o potencial de valor futuro e o “preço presente”.

O exercício de percorrer de trás pra frente o ciclo de maturação das empresas ajuda no desafio de avaliar asempresas emergentes.

No caso das companhias abertas (listadas em bolsa de valores), o preço da empresa (market cap) em um dado momento é obtido através da simples multiplicação do seu número total de ações pela cotação em bolsa naquele momento. E o preço da ação corresponde ao ponto de convergência das opiniões de inúmeros agentes de mercado (e também de seus algoritmos), todos estes atuando em regime de isonomia de informação.

Em um estágio anterior, por exemplo na entrada de um fundo de private equity que vislumbra levar a empresa até o mercado aberto (initial public offering ou IPO na sigla em inglês), já não existe mais o regime de isonomia de informação. Ainda assim, o investidor pode basear sua avaliação nos resultados históricos e suas derivadas. Eventualmente podem existir dados sobre transações semelhantes disponíveis no mercado, o que diminuiria o risco intrínseco de uma análise puramente técnica do ativo. No estágio de venture capital, estas informações também podem eventualmente existir, embora de uma forma menos estruturada.

Voltando ainda um pouco mais no ciclo, chegamos ao estágio do investidor anjo ou do “seed money”. Muitas vezes não existe histórico e, se existe, não deve significar muito em relação ao potencial de crescimento da startup. Também não há disponível, pelo menos nos mercados menos maduros, suficiente histórico de transações semelhantes e muito menos divulgação dos seus detalhes. O que acaba naturalmente distanciando preço e valor para este tipo de empreendimento.

O investidor “seed” é um tipo diferente de capitalista de risco a partir do momento em que ele se dispõe a considerar os ativos intangíveis como sendo a parcela mais importante do negócio. Ele estará seguro para atribuir a uma startup o seu valor justo quando realmente entender e acreditar no plano de negócios desse empreendimento em todos os aspectos relevantes e, acima de tudo, quando estiver disposto e preparado para contribuir na sua execução.

Quanto ao empreendedor, este deverá estar maduro o suficiente para admitir o preço justo da sua startup quando, além de dominar o plano de negócios, tiver autocrítica e desapego suficientes. Esta equação demonstra que o preço justo se aproxima do valor justo à medida que o investidor adequado se aproxima do empreendedor bem preparado. Este sim é um bom ponto de partida para o sucesso na soma de capital + talento.

Luciano Grandi Pantuso é sócio-fundador da Venerdì Investments, empresa especializada na gestão de fundos de Venture Capital, gestor regional dos fundos Criatec I e II e executivo-financeiro com passagem pelas indústrias de Óleo & Gás e Entretenimento.