Avanços na área de águas profundas

Avanços na área de águas profundas

17/11/2014

Fonte: Valor Econômico|

Em um setor que exige elevadas somas de recursos, como o de petróleo e gás, iniciativas inovadoras em toda a cadeia produtiva são estratégicas para obter menores custos e maior produtividade. Petrobras, Concremat, Brasco, Ativatec e easySubsea, entre outras, são exemplos de empresas que abraçaram esta empreitada com grandes investimentos, muitas vezes com apoio de programas como o InovaPetro, que tem 163 bilhões no orçamento, divididos entre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetas (Finep).

O setor de óleo e gás pode ter, em breve, outros R$ 2,5 bilhões com o Inova Fornecedores. O novo programa, também apoiado por BNDES e Finep, está em negociação e depende da conclusão do processo de mudanças nas regras da Agência Nacional do Petróleo (ANP) sobre aplicação obrigatória, pelas petroleiras, de recursos em pesquisa e desenvolvimento. Segundo a ANP, não há data definida para divulgar as alterações.

“Aguardamos a aprovação do novo regulamento técnico da ANP com novidades sobre a Cláusula de P&D. Esses recursos, a depender das novas regras, poderão fazer parte do orçamento do novo programa”, diz o superintendente da área de financiamento da Finep, Mauricio Syrio. Uma das mudanças em estudo peia ANP é permitir que as petroleiras tenham possibilidade de fazer aportes diretos em empresas da cadeia do setor. Lançado no final de 2012, com vigência até 2017,o InovaPetro tem apoio técnico da Petrobras. Atualmente, três grandes eixos de inovação estão sendo perseguidos no Brasil, como explica Priscila Branquinho, chefe do departamento de gás, petróleo e cadeia produtiva do (BNDES). São eles: a compactação dos equipamentos de processos na plataforma, o foco em equipamentos submarinos de olho numa futura produção no fundo do mar e tecnologias relacionadas à completação inteligente de poços.

No primeiro edital, as empresas solicitaram um apoio de RS 2,7 bilhões. Ao todo, foram analisados 11 planos de negócio, totalizando R$ 355 milhões em volume de investimentos. Três planos foram aprovados, avaliados em RS 60 milhões, já no segundo edital, 28 empresas apresentaram 39 projetos de R$ 688 milhões em investimento. Depois da primeira peneira, ficaram 20 projetos, de 17 empresas, somando RS 471 milhões. “Os planos de negócio estão sendo analisados, e o resultado sobre os aprovados para a próxima fase será divulgado em dezembro”, diz Priscila. A Petrobras é a grande investidora em pesquisa, desenvolvimento e inovação do setor. Só em 2013 aplicou US$ 1,132 bilhão na área, o equivalente a 0,8% da sua receita líquida. Seu Centro de Pesquisas (Cenpes) é responsável por tocar centenas de projetos. Um deles é o Sistema de Visualização Integrada em Exploração e Produção (Siviep), em parceria com a PUC-Rio/Tecgraf.

A principal característica do sistema é fazer com que a visualização incorpore dados de geociências (sísmica, poços, modelos geológicos e modelos de reservatórios) e de engenharia (navios, plataformas, plantas de processo e sistemas de produção submarinos) em uma única cena tridimensional interativa.

As imagens podem ser visualizadas em computadores comuns e em grandes sistemas imersivos de realidade virtual. Segundo o gerente-executivo do Cenpes, André Cordeiro, desde 2011 já foram investidos nesse projeto cerca de R$ 4 milhões.

Para o diretor de tecnologia e inovação da Coppe/UFRJ, Romildo Toledo, o desafio atual é desenvolver tecnologias capazes de levar a produção cada vez mais para o fundo do mar. E o pré-sal desempenha um papel importante nessa busca. Isso porque mobiliza esforços de petroleiras, universidades e fornecedores. Mas as inovações, segundo ele, não se limitam necessariamente à nova fronteira petrolífera.

A Coppe tem vários exemplos de pesquisas em parceria. Junto com a Petrobras, desenvolve um projeto de robótica para inspeção de instalações submarinas. Com a empresa de origem britânica BG Brasil, atua em um projeto de observação oceânica e monitoramento de riscos por meio de simulações 3D. Outra pesquisa avançada, em conjunto com a americana GE, tem por objetivo obter soldas mais resistentes à corrosão. Toledo prevê um avanço da produção na próxima década. “Teremos uma operação mais automatizada e controlada remotamente, com uma necessidade menor de gente embarcada em plataformas”, observa.
Dados da ANP indicam que pelo menos RS 30 bilhões serão aplicados em P&D nos próximos dez anos. De olho neste montante de recursos, a brasileira Sacor, líder no ramo de proteção catódica contra corrosão, comprou em setembro 60% do capital da Ativatec. Empresa residente da Incubadora da Coppe/UFRJ, a Ativatec fornece soluções e serviços de robótica submarina para a manutenção de equipamentos de produção de óleo e gás em águas profundas.

A aquisição facilitará o crescimento da tecnologia nacional no mercado de serviços de inspeção e manutenção submarina, hoje dominado por empresas estrangeiras. Especialistas calculam que esse segmento tem capacidade para movimentar cerca de US$ 5 bilhões por ano, e pode atingir um volume de US$ 20 bilhões em 2020. O sócio-fundador da Ativatec, Daniel Camerini, conta que as linhas de pesquisas prioritárias são a manutenção de risers (dutos) e proteção e monitoramento da corrosão, tecnologias vitais para evitar vazamentos e parada de produção.

A empresa já conta com oito patentes de tecnologias de inspeção, intervenção e monitoração de equipamentos de produção em águas profundas. Uma delas é a Crab Tool, desenvolvida em parceria com a Petrobras. É utilizada para a detecção de trincas, fissuras e perda de material por corrosão em componentes estruturais de equipamentos submarinos.

A Concremat Engenharia e Tecnologia, por sua vez, investe em um projeto de inovação voltado para o pré-sal no Rio de Janeiro. Inclui um laboratório de análises e de modelagem computacional petrofísica, cujas atividades deverão ser iniciadas em dezembro deste ano. Nessa instalação será possível fazer a simulação de propriedades como porosidade, permeabilidade e pressão capilar de rochas carbonáticas. O total de recursos envolvidos nessa iniciativa é de R$ 5,6 milhões, dos quais R$ 3,7 milhões virão da Finep. O trabalho no laboratório vai permitir a compreensão do comportamento dos reservatórios do pré-sal. A empresa catarinense ESSS é parceira e utilizará imagens 2D de amostras captadas por microtomógrafo, processadas e convertidas em figuras tridimensionais. Estas últimas serão o principal alimentador das simulações numéricas. “Os métodos de análise de imagens vêm se mostrando uma boa alternativa na complementação das medidas laboratoriais na busca por redução de prazos e custos”, diz Jaqueline Saad, gerente de inovação e negócios E&P da Concremat.

Embora haja bons exemplos de esforços inovadores, Mauricio Syrio, da Finep, diz que muitas empresas da cadeia produtiva ainda estão temerosas em investir nas atividades de P&D por falta de uma demanda garantida. “Esse setor é concentrado em praticamente um único cliente, a Petrobras. E a empresa, devido à obrigatoriedade da legislação, não pode contratar diretamente, apenas através de licitação”, observa.

Esse não é caso da novata carioca easySubsea, que vem investindo cerca de 80% do seu orçamento em pesquisa e desenvolvimento. Seu sócio-fundador, Rhuan Samary Barreto, conta que a empresa precisou de dois anos de trabalho para desenvolver um sistema de monitoramento de poços submersos, capaz de assimilar dados de pressão e temperatura do óleo durante a produção. O produto está chegando ao mercado.

Os esforços atuais se voltam para a criação do easyComm, uma plataforma de comunicação sem fio utilizando hidroacústica, mas que também pode usar outros tipos de tecnologia sem fio. Isso porque, explica Barreto, a costa brasileira é heterogênea e nem sempre é possível usar a mesma solução. Para essa empreitada, a easySubsea está fechando parcerias estratégicas no Brasil e no exterior. Outra empresa que vem apostando em novidades tecnológicas é a Brasco, braço de apoio offshore do grupo Wilson Sons. Há três anos, fez um investimento de cerca de R$ 1,5 milhão em um equipamento semiautomático, desenvolvido em parceria com uma empresa americana, para a limpeza de tanques de óleo de forma mais amigável ao meio ambiente. A empresa, que chega a executar o serviço em 20 tanques em um mês, já avalia a aquisição de um segundo equipamento em 2015.

É quando sua base no Caju (RJ), em obras de expansão, estará pronta, passando a ter capacidade para atracar cinco embarcações simultaneamente. De acordo com Gilberto Cardarelli, diretor-executivo da Brasco, as operações feitas nos últimos seis meses com o equipamento semiautomático obtiveram uma redução de cerca 25% no consumo de água – o que leva a menor geração de resíduos – e 20% no tempo de limpeza em comparação aos métodos tradicionais.